Suando a camisa

KaszekEditor Web-Pick
8 January 2018

Source: https://medium.com/maiscervejanotrabalho/suando-a-camisa-c725c9c7823

A startup brasileira Gympass aposta em modelo de assinatura para democratizar e facilitar a atividade física e oferece, a partir de uma mensalidade fixa, acesso ilimitado em mais de 26 mil academias espalhadas por 13 países.

Quando era consultor em uma empresa multinacional em São Paulo, César Carvalho, 34 anos, passava boa parte do tempo viajando a trabalho. Dependendo do projeto, chegava a mudar de cidade a cada três meses. Fã de esportes, em todas encontrava o mesmo problema: para malhar ou praticar tênis, sua atividade favorita, precisava passar pelo processo burocrá- tico e caro de se matricular em uma nova academia. “A maioria dos planos era de, no mínimo, seis meses, nada funcional para quem tinha uma rotina como a minha”, lembra. César gastava dinheiro e não usufruía de tudo que tinha direito — realidade que você provavelmente já experimentou, mesmo que por outro motivo. Para resolver a questão, criou o Gympass, serviço que oferece acesso ilimitado em mais de 26 mil academias no Brasil e em outros 12 países como França e Chile com mensalidades que variam de R$ 69,90 a R$ 729,90. “Queremos democratizar a atividade física e dar mais liberdade e opções para as pessoas”, explica o CEO.

O modelo é simples: basta o usuário abrir o site ou o aplicativo do Gympass, ver as academias mais próximas a ele ou escolher entre as 727 modalidades oferecidas — há desde natação e zumba a muaythai. Não à toa, o serviço é considerado a Netflix das academias e atraiu cinco rodadas de investimento, entre eles da General Atlantic, que já apostou em empresas como Uber e XP Investimentos.

“O Gympass evoluiu e cutucou um mercado que já era grande”, afirma Richard Bilton, diretor da Associação Brasileira de Academias (Acad) e CEO da Cia Athletica, uma das redes cadastradas na plataforma. Segundo relatório do International Health Racquet Sports Association, grupo americano de academias e clubes, o Brasil é o segundo país em número de estabelecimentos, com 34.509, atrás apenas dos Estados Unidos, e o quarto em número de clientes — estima-se que 9,6 milhões de pessoas estejam matriculadas atualmente, 43% a mais do que em 2012, quando a plataforma nasceu. Além da praticidade, a grande sacada da empresa foi valorizar o tempo do cliente. “Hoje em dia, ninguém gosta de pegar carro ou caminhar muito para chegar à academia”, explica César.

Um, dois, um, dois

Formado em administração pela USP e com passagens pela CVC Viagens e McKinsey, até 2012, César, que nasceu em Alfenas, Minas Gerais, nunca tinha pensado em empreender. Até que, em janeiro daquele ano, durante uma aula de estratégia em Harvard, nos Estados Unidos, onde cursava um MBA, percebeu que seu problema de malhar em diferentes cidades poderia virar um projeto. “Quando o professor comentou sobre a indústria das academias, me usei como exemplo e já comecei a ter ideias”, conta ele, que se inspirou nos conceitos de economia compartilhada da Zipcar, startup americana de aluguel de carros. “Vi que não tinha nada parecido para quem queria malhar.”

César chamou os amigos João Thayro, 31, com quem tinha trabalhado na CVC, e Vinicius Ferriani, 32, colega de Mckinsey, para tirar o projeto do papel. Em reuniões por Skype, montaram juntos o plano de negócios e validaram a ideia por meio de pesquisas on-line e contatos com academias brasileiras. “Eu ligava e oferecia o projeto como se ele já existisse, para sentir a reação. Todos se interessavam”, conta. O retorno positivo foi suficiente para o trio juntar um investimento de R$ 350 mil com amigos e parentes e decidir focar no Gympass. Quatro meses depois de ter a ideia, César largou Harvard, voltou para o Brasil e, no dia seguinte ao desembarque, já estava fechando contratos com academias paulistanas. O site foi ao ar no dia 21 de junho de 2012, com 60 academias cadastradas. A primeira a apostar no projeto foi a SP Fit Club, nos Jardins, área nobre da capital. “Sempre gostei de trabalhar com diária avulsa e achei legal a proposta. O Gympass ajuda a divulgar a academia e traz gente diferente que não consegue manter uma rotina”, diz a proprietária Karina Sonnenfeld.

Mudança de rota

Em nove meses, o Gympass já contava com 200 academias. Parecia estar no caminho certo, até que uma ligação da sede brasileira da PwC, uma das maiores auditorias do mundo, mudou a direção. “Eles queriam saber se a gente tinha planos corporativos para os 5 mil colaboradores da empresa. Na época, nem cogitávamos focar nesse público, mas foi a melhor decisão”, lembra César, que, para atender a demanda, precisou aumentar a equipe.

Hoje, 90% da receita do Gympass vem das mais de cem empresas que oferecem o serviço como um benefício a seus funcionários, algo que tem se mostrado cada vez mais importante para atrair e reter talentos. Companhias como Sodexo e MetLife pagam uma taxa para o Gympass e o funcionário tem direito a um desconto de até 70% nos planos, válido inclusive para seus dependentes. “Uma das principais perguntas na hora de receber uma oferta de trabalho é sobre pacote de benefícios. Academia, junto com seguro-saúde, alimentação e transporte, é um dos itens mais considerados pelos candidatos, o que explica o sucesso do Gympass”, afirma Eduardo Migliano, cofundador do 99jobs, plataforma que conecta pessoas a vagas de emprego. “O Gympass eliminou a burocracia que encontrávamos na hora de vender planos corporativos e ainda movimentou unidades mais fracas”, destaca Richard Bilton.

Entre os principais clientes está a Unilever, presente nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. “Temos uma plataforma interna que promove o bem-estar e escolhemos incluir o serviço nela por atender nossos colaboradores independentemente de onde estiverem”, conta Carolina Mazziero, diretora de Recursos Humanos da Unilever Brasil. Na unidade de São Paulo, a adesão foi de 55%. Na fábrica de Valinhos, interior, 65%. “Fizemos uma correlação dos dados e percebemos que os índices de afastamento do trabalho por questões de saúde vêm diminuindo entre aqueles que se exercitam.”

Brasileira

A procura de multinacionais fez com que a empresa, que hoje conta com 700 colaboradores, precisasse expandir sua área de atuação. Desde 2015, além da sede em São Paulo, tem escritórios em países como Argentina e Espanha. “Muita gente pensa que somos estrangeiros. Que sirva de inspiração para outras startups brasileiras também se tornarem globais”, diz César, que hoje vive em Madri com a mulher, Ana Karla Carvalho, grávida de nove meses, e o filho Francisco.

Para 2018, o plano é aumentar em 120% o número de empresas conveniadas e criar programas que misturem objetivos e competições, algo parecido com o extinto quadro “Medida certa”, do Fantástico. Enquanto isso, César continua jogando tênis toda semana e, graças a seu negócio, experimentado novas modalidades, como boxe e crossfit, que ele nunca tinha se imaginado praticando. Inspirado em cases como o do Airbnb, que se tornou a maior empresa hoteleira sem possuir um único hotel, o mineiro se enxerga no comando da maior rede de academias, apesar de não administrar nenhuma unidade. “Dar chance às pessoas de melhorarem suas vidas praticando o que desejam e onde estiverem é o nosso diferencial”, diz.

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